Lençóis

Lençóis…

      “Tinha uma pedra branca, muito linda… Hoje só existe uma parte dela”.

Primavera traz aromas, cores e amores. Traz flores sobejadas de asas: borboletas, abelhas, beija-flores… Antes mesmo do prenúncio de chuvas a folhagem se reveste de brilho em variados tons, para recobrir a vegetação sedenta dos cerrados. Os pássaros robustecem de vida e os seus cantos de alegria. Junto a essa harmonia tão peculiar, também parece que se renovam as esperanças na alma humana.

A Primavera dos Museus – evento criado pelo ex-ministro Gilberto Gil e coordenado pelo Ministério da Cultura (Ibram – Minc), nesta edição, com o tema Mulheres, Museus e Memórias oferece, em museus de todo o território brasileiro, inúmeras atrações. O Museu da Imagem e do Som de Goiás – MIS, agora sob a direção do jornalista Daniel Christino – doutor e professor de Comunicação e Jornalismo da Universidade Federal de Goiás – UFG -, se antecipa em projetos e exposições, além de um contínuo atendimento à comunidade, colocando à disposição o seu vasto acervo visual e fonográfico.

Estabelecido à Praça Cívica – Goiânia, no Centro Cultural Marieta Telles Machado, o Mis abriu ao público, de 06 de junho a 31 de setembro, a exposição de arte contemporânea: Memórias do Rio Vermelho – Cidade de Goiás, da artista plástica e, também, professora universitária Selma Parreira. Projeto em interação com as artes visuais e o patrimônio cultural brasileiro, onde a artista agrega objetos a elementos textuais de Bené Fonteles, artista e curador e Nei Clara Lima, antropóloga, à fotografia: mostras iconográficas do acervo do Museu de Arte Sacra de Goiás – Don Cândido Penso -; dos fotógrafos: Paulo Rezende e Vicente Sampaio e do acervo do Museu da Imagem e do Som de Goiás – coleção do fotógrafo Alois Fheichtenberger –.

Selecionado pelo Ministério da Cultura junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2007 -, o trabalho de Selma navega entre o imagético estático e o audiovisual. Instiga, sem, contudo, questionar o progresso e suas consequências positivas ou negativas. Deixa que o olhar mais atento e a argúcia o perceba, decida. Na linguagem do exaustivo labor das lavadeiras os depoimentos testemunham sonhos que permeiam sofrer e sorrir. Fartas relembranças que emergem: nas águas do rio e nas pedras dos barrancos… Reminiscências e tributos à memória cultural, à vida, à subserviência acondicionada ao sustento da família, ao pão de cada dia, à escola para os filhos. Memórias, mulheres, Marias: Fia, Dita, Joseli e tantas outras cansadas de carregar, ensaboar, quarar, enxaguar e estender as vestes do passado. Labutas que a depoente encerra: chega!

Gente, caminhos, povoados, cidades… Enfim, a dialética sutil, urdida no ideário poético da artista, traduz da temática o artístico, a estética, o histórico.

As boiadas se foram. Nas bacias, apenas o azul anil poderá tingir de céu os Lençóis esquecidos no Rio Vermelho.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s